sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Os Moradores Malucos do Casarão Mal-Assombrado

Era uma tarde anuviada, embora tinha um céu azul em um tom triste estava com um clima bastante convidativo para dar uma volta pelas ruas do bairro Polazio. Ao me aproximar da padaria Capitais, lembrei que deveria estar quase na hora do café quando decidi passar por ela para comprar alguns pães. Após comprar alguns pães, continuei a minha passeata pelas ruas de Polazio, dobrando em uma esquina e entrando numa rua com muitas lojas e comércios. No meio de todas essas lojas, havia uma sorveteria que há muito tempo eu não ia, e como o troco dos pães era o suficiente para uma dessas delícias, decidi ir comer um sorvete que há muito tempo eu não experimentava.

  Eu já nem me lembrava direito aonde ficava esta sorveteria. Olhando loja por loja, vi algo que parecia que este não era o seu lugar, pois jamais tinha o visto antes também. Um casarão com arquitetura antiga e escassa pelo tempo. A porta tinha um formato impossível de se identificar e estava aberta mostrando uma escuridão que transparecia os formatos dos móveis de dentro. Subindo nos degraus de pedra, entrei no chamativo e esquisito casarão.
 Sem medo do que vier, logo entrei em uma sala de estar de aspecto mofado e pouco mobiliado. Logo ao meu lado tinha um pêndulo belo, a única coisa bela também, pois ao lado tinha uma estante descascada e quebradiça, com eletrônicos que provavelmente não funcionavam mais, a frente de um sofá oliva e rasgado. Mais no fundo da sala tinha uma porta que parecia levar a uma cozinha iluminada, que antes de eu pensar em entrar lá, saiu uma pessoa igualmente velha ao casarão todo. Estava encapuzada por uma peça de roupa única, que ao se aproximar de mim, tirou o capuz e mostrou sua face ao perguntar:
 - Gostaria de uma xicara de chá, meu jovem visitante? - Disse a senhora num tom bondoso com um sorriso sem mostrar os dentes
 Sua voz soava trêmula mais doce, e ela tinha um rosto enrugado, de olhos desiguais e pretos, com um nariz adunco. Não esperava tal pergunta, mas menos ainda a resposta que sairia da minha boca:
 - Sim, com muito açúcar, por favor. - Disse eu, firme a resposta.
 Então ela soltou outro sorriso bondoso, e virou as costas indo ao lugar que parecia ser a cozinha.
 Eu sentia uma sensação tranquila que não combinava com o momento, pois o casarão tinha um ar mal-assombrado, mas era o que eu sentia. Em meio disso, dei alguns passos a observar a casa melhor, chegando em uma escadaria de mármore. Ao verificar até onde a escadaria levava, eis que levei um susto. Havia um grupo de crianças me observando abobadas no topo que, ao me ver olhar para elas, correram para trás desesperadas trombando umas nas outras, em um corredor que parecia ter muitas portas. Elas pareciam estar usando trajes de palhaços e maquiadas como um. Ao me recuperar da visão inesperada, olhei para o meio da sala de estar e lá estava a senhora, segurando uma bandeja de prata com uma xicara de porcelana. Ela me olhava inerte e sorria.
 - Desculpe, não tinha visto a senhora. - Respondi, inesperadamente.
 - Não tem problema. - Disse a voz bondosa. - Sente-se para tomar o chá, querido.
 - Sim.
 Sentei então no sofá de oliva largando a sacola de pães ao lado e peguei a xicará que ela me estendia na bandeja. Tomei uns goles e percebi que estava quente e fraco. Ela continuava me olhando e sorrindo parada a minha frente, como se tivesse esperando algum pedido. Curioso, eu perguntei:
 - Qual é o seu nome?
 - Ele não importa. Mas te importara a resposta da sua próxima pergunta. - disse ela, no mesmo tom bondoso.
 Pensei um pouco na sua resposta dubiosa e continuei:
- Quem são aquelas crianças que estavam vestidas de palhaças lá em cima?
- Sim, as crianças. As crianças são seus...
 Ela foi interrompida por um som terrivelmente barulhento vindo do teto. Parecia ser uma marcha de um enorme exército. Com seus olhos de tamanhos desiguais olhando para o teto, ela se encaminhou para a escada de mármore, resmungando.
 O pisadeiro de cima ficava cada vez pior, tão grande que estava fazendo as paredes e o piso tremer. Pedaços pequenos do cobrimento do teto começaram a cair, ao ponto em que eu comecei a me assustar pela primeira vez por estar naquele lugar. O medo de que tudo aquilo despencasse na minha cabeça foi me tomando, e sem pensar duas vezes, sai correndo do casarão que parecia desabar.

 Continuando a caminhada pela rua dos inúmeros comércios, tinha achado a sorveteria que há tanto tempo eu não ia. Era um lugar com mesas, cadeiras, e um balcão ao lado de um refrigerador. Peguei o sorvete que parecia ser o que há tanto tempo eu não comia, e paguei em moedas a mulher magra de cabelos castanhos presos que estava atrás do balcão. Antes de eu sair, me virei e perguntei a mulher:
 - O que é aquele casarão antigo que fica aqui perto, onde mora uma senhora de idade?
 - Casa antiga aqui perto? Não conheço nada que esteja nesta rua a não ser lojas. - respondeu ela com certa rispidez.
- Mas tem sim, um casarão preto de... - disse eu até abocanhar o sorvete que não comia há tanto tempo e que, por sinal, era realmente muito saboroso.


                             Os Moradores Malucos do Casarão Mal-Assombrado
Danilo O.

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